O Oriente é Verde: A Perspetiva Chinesa para a Neutralidade Carbónica
João Graça Gomes, Henrique Pombeiro, Yang Tianqi, Jiang Juan
Este artigo foi originalmente publicado na revista Ingenium da Ordem dos Engenheiros
Desde a reforma económica de 1978, a República Popular da China tem verificado um rápido desenvolvimento socioeconómico, que se traduziu num crescimento médio do PIB de 9% ao ano, numa melhoria considerável dos serviços e infraestruturas do país e numa redução acentuada dos índices de pobreza. Não obstante, o crescimento económico exponencial chinês originou uma série de desafios no setor energético: entre 1978 e 2021, o consumo energético primário cresceu 845%, de 4.632 TWh para 43.791 TWh, e várias previsões apontam para que esta trajetória se mantenha nas próximas décadas.
Como expectável, o elevado consumo energético provocou um aumento das emissões de gases de efeito de estufa: no mesmo período, as emissões passaram de 1,49 mil milhões de toneladas de CO₂e para 11,47 mil milhões de toneladas de CO₂e, em grande parte devido às emissões dos setores de produção de eletricidade e calor, e à enorme preponderância do carvão.

Fig. 1: Emissões de CO₂e por combustível e indústria (destacando produção de cimento), em 2021, República Popular da China. Unidades: toneladas.
Ciente do impacto das emissões chinesas no clima global, o Governo da República Popular da China anunciou em 2020 que o país pretende reverter o seu papel de maior emissor global de CO₂ e alcançar a neutralidade carbónica até 2060. Isto implica reduzir as emissões remanescentes para valores iguais ou inferiores à capacidade de absorção das florestas nacionais.
A primeira etapa desta descarbonização consiste em assegurar que o pico de emissões de carbono ocorre antes de 2030, através de um processo de rápida transformação industrial. Tendo em conta o crescimento económico, a dimensão populacional e as diferenças geográficas do país, surgem questões fundamentais: são estes objetivos realistas e que ações estão a ser promovidas para os alcançar?
Evidências do Realismo das Metas
Um primeiro argumento reside na redução da intensidade carbónica. Entre 2005 e 2020, esta diminuiu 48,4%.
Em segundo lugar, a China tem ultrapassado consistentemente os objetivos internacionais de integração de energias renováveis. Nos três últimos Planos Quinquenais, registaram-se elevadas taxas de crescimento da potência instalada em fontes de baixo carbono (renováveis + nuclear).

Fig. 2: Metas de integração de energias de baixo carbono no setor elétrico vs. valores obtidos, República Popular da China.
Análise por Tecnologia
1. Energia Eólica
A potência instalada cresceu 1.010% em 11 anos, passando de 29,6 GW para 328,48 GW. Em 2020, foram instalados 72,3 GW, correspondendo a 63% da potência eólica global instalada nesse ano.

Fig. 3: Evolução da potência eólica (2012–2021), República Popular da China.
2. Solar Fotovoltaico
Até ao final de 2021, a China detinha mais de 35% da potência solar fotovoltaica mundial. Entre 2012 e 2021, a capacidade aumentou quase 7.200%, de 4,2 GW para 306,56 GW. Cerca de 60% das fábricas de células fotovoltaicas estão localizadas na China.

Fig. 4: Evolução da potência solar fotovoltaica (2012–2021), República Popular da China.
3. Energia Hídrica
Entre 2012 e 2021, a potência hídrica cresceu de 250 GW para 370 GW, incluindo 32 GW de capacidade de bombagem, essencial para a integração de eletricidade renovável variável.

Fig. 6: a) Consumo elétrico b) Consumo energético primário, 2021, República Popular da China.
Estratégia para a Neutralidade Carbónica
Nos últimos anos, o governo chinês publicou documentos estratégicos fundamentais:
- Working Guidance for Carbon Dioxide Peaking and Carbon Neutrality
- Action Plan for Reaching Carbon Dioxide Peak Before 2030
- 14th Five-Year Plan (2021–2025)
Principais Objetivos
- Aumentar a quota de fontes de baixo carbono para 20% em 2025 e 25% em 2030.
- Substituição progressiva do carvão, com 50% da eletricidade interprovincial de origem renovável.
- Expansão eólica e solar para pelo menos 1.200 GW até 2030.
- Desenvolvimento nuclear, incluindo reatores modulares e offshore.
- Armazenamento de energia, com 120 GW em hídrica reversível e 30 GW em baterias até 2025.
- Redução do consumo de petróleo, especialmente nos transportes.
- Reutilização de resíduos industriais na construção.
- Promoção do transporte verde, com 40% dos novos veículos elétricos ou a hidrogénio até 2030.
- Desenvolvimento do hidrogénio verde, incluindo projetos power-to-gas.
- Aumento do investimento em I&D, superior a 7% ao ano.
- Reflorestação, com aumento de 4,5 mil milhões de m³ de cobertura florestal até 2030.
Conclusão
Apesar de desafios significativos — infraestruturas elétricas, dependência industrial de fósseis e necessidades financeiras —, os dados mostram que a China tem superado as suas próprias metas. Entre 2005 e 2020, reduziu drasticamente a intensidade carbónica e ultrapassou compromissos internacionais.
Com investimentos contínuos em energias renováveis, eficiência energética, infraestrutura verde e conservação florestal, a China tem potencial para liderar a transição energética global e contribuir decisivamente para o combate às alterações climáticas.